Quem frequenta uma igreja batista por algum tempo logo ouve frases como “isso vai ser levado à assembleia” ou “a igreja vai votar”. Para quem vem de outras tradições, isso pode causar estranheza. Afinal, quem decide na igreja? O pastor, uma diretoria, uma sede nacional?
A resposta batista tem nome: governo congregacional. Cada igreja local, reunida em assembleia de membros, é quem toma as decisões mais importantes da sua vida comunitária. Isso não significa que tudo passe por votação. A assembleia define os rumos e escolhe quem vai servir; o dia a dia é conduzido pelo pastor, pelos diáconos e pelos ministérios que a própria igreja reconheceu.
Antes de tudo: Cristo deve ser o cabeça
Uma assembleia batista não é um parlamento em que a maioria aprova o que bem entender. A igreja pertence a Jesus Cristo, que é o cabeça do corpo (Colossenses 1:18; Efésios 1:22-23). Quando os membros se reúnem para decidir, a pergunta certa não deve ser o que a maioria prefere, e sim “o que é fiel à Palavra de Deus e bom para a missão?”.
A assembleia não deve aprovar nada que contrarie as Escrituras.
O que a Bíblia mostra
O Novo Testamento não traz um regimento interno pronto, mas mostra várias vezes a congregação participando das decisões de peso:
- Escolha de servidores. Quando surgiu um problema na distribuição de alimentos às viúvas, os apóstolos reuniram os discípulos e pediram que eles mesmos indicassem sete homens de boa reputação para cuidar da tarefa. A proposta agradou a todos, e a comunidade fez a escolha (Atos 6:1-6).
- Decisões que envolviam outras igrejas. Depois da reunião em Jerusalém sobre a salvação dos gentios, a decisão de enviar mensageiros a Antioquia foi tomada pelos apóstolos e presbíteros junto com a igreja inteira (Atos 15:22).
- Disciplina. Jesus ensinou que, esgotadas as conversas particulares, um pecado não resolvido deve ser levado à igreja (Mateus 18:15-17). Paulo orientou os coríntios a agir quando estivessem reunidos (1 Coríntios 5:4-5) e, mais tarde, mencionou a correção aplicada pela maioria (2 Coríntios 2:6).
- Representantes. O irmão que acompanhou Paulo na entrega de uma oferta foi escolhido pelas igrejas para essa função (2 Coríntios 8:19).
Esses textos se somam ao ensino do sacerdócio de todos os crentes (1 Pedro 2:9). Todo cristão tem acesso direto a Deus pela fé em Cristo, recebeu o Espírito Santo e é responsável pela saúde da igreja de que faz parte. Não existe na congregação uma classe de pessoas espiritualmente superiores que decida pelas demais.
O que normalmente vai para a assembleia
Cada igreja define no seu estatuto e no seu regimento interno o que depende de decisão da assembleia. De modo geral, são os assuntos que afetam a igreja como um todo:
- recepção, transferência e desligamento de membros;
- convite ao pastor e eleição de diáconos e de quem ocupa cargos de liderança;
- aprovação do orçamento anual e das prestações de contas;
- compra, venda ou reforma significativa de imóveis e outros compromissos financeiros de grande porte;
- alterações no estatuto e no regimento interno;
- a cooperação com convenções e outras igrejas;
- casos de disciplina que não foram resolvidos nas etapas anteriores.
O que não vai para a assembleia
Governo congregacional não é votar tudo. Uma igreja que levasse cada detalhe ao plenário ficaria paralisada e, além disso, desrespeitaria as pessoas que ela mesma escolheu para servir.
O próprio episódio de Atos 6 mostra isso. A igreja escolheu os sete, mas depois não passou a deliberar sobre cada refeição servida. Os escolhidos assumiram a tarefa, e os apóstolos puderam continuar dedicados à oração e ao ensino da Palavra (Atos 6:3-4).
Assim, ficam com a liderança, dentro dos limites aprovados pela igreja:
- a pregação, o ensino e o cuidado pastoral, que são responsabilidade do pastor (Efésios 4:11-12);
- a organização dos cultos e da programação regular;
- o trabalho de cada ministério, como crianças, jovens, louvor e ação social;
- as despesas já previstas no orçamento aprovado;
- aconselhamentos e situações pessoais, que pedem sigilo e não devem ser expostos publicamente.
A Bíblia pede que a igreja reconheça, estime e apoie quem a lidera (1 Tessalonicenses 5:12-13; Hebreus 13:17), e pede aos líderes que sirvam de exemplo, sem agir como donos do rebanho (1 Pedro 5:2-3). O governo congregacional preserva esse equilíbrio: a liderança conduz, e a igreja reunida decide os rumos maiores.
Cada igreja é autônoma
O governo congregacional anda junto com outro princípio batista: a autonomia da igreja local. Não há bispo, conselho regional ou sede nacional com poder para nomear pastores, administrar o patrimônio ou dar ordens a uma igreja batista. Quem decide sobre a vida da igreja é a própria igreja.
Autonomia, porém, não é isolamento. As igrejas batistas cooperam voluntariamente em associações e convenções para sustentar missionários, formar pastores e realizar projetos que nenhuma delas faria sozinha. A Igreja Batista do Fragata é filiada à Convenção Batista Brasileira e coopera também com a Convenção Batista do Rio Grande do Sul. Nessa relação, as convenções servem às igrejas, e não o contrário.
Quem participa
Têm voz e voto na assembleia os membros da igreja: pessoas que professaram fé em Jesus, foram batizadas e foram recebidas pela congregação. Detalhes como a idade mínima para votar ficam a cargo do estatuto de cada igreja.
Isso ajuda a entender por que os batistas batizam somente quem crê. Se a igreja toma decisões em conjunto, ela precisa ser formada por pessoas que conhecem a Cristo e desejam obedecer a Ele.
Como deve ser uma assembleia
- Com oração. A decisão começa diante de Deus, e não numa disputa de argumentos.
- Com ordem. Propostas claras, tempo para cada um falar e votação organizada, porque Deus não é Deus de confusão (1 Coríntios 14:33, 40).
- Com humildade. Cada um defende sua opinião com respeito, sem rivalidade nem vaidade (Filipenses 2:3).
- Com unidade depois do voto. Quem teve a opinião vencida não perde o lugar nem o valor. Decidida a questão, a igreja segue junta, cuidando da unidade que o Espírito produz (Efésios 4:3).
Conclusão
Os Batistas tomam as principais decisões em assembleia porque entendem a igreja como uma comunidade de irmãos sob o senhorio de Cristo, em que cada membro tem acesso a Deus e responsabilidade pelo corpo. A assembleia não existe para votar tudo nem para enfraquecer a liderança. Ela existe para que, nas questões que afetam a todos, a igreja busque junta a vontade do Senhor e caminhe unida no que decidiu.