A Igreja Universal do Reino de Deus foi fundada em 1977 por Edir Macedo, no Rio de Janeiro. Em poucas décadas, tornou-se uma das maiores igrejas neopentecostais do mundo, com presença em mais de cem países e grande influência midiática (MARIANO, 1999).
Mas a pergunta central é: a IURD é realmente uma igreja cristã? Ou trata-se de uma seita, que apenas usa a Bíblia como fachada? Para responder, precisamos olhar não apenas para seu tamanho ou impacto social, mas para sua mensagem e prática. Afinal, Jesus advertiu:
“Cuidado com os falsos profetas. Eles vêm a vocês vestidos de peles de ovelhas, mas por dentro são lobos devoradores” (Mateus 7.15).
2. O que é uma seita?
Seita é um movimento que, ainda que use a Bíblia, distorce ou nega as doutrinas centrais da fé. John Stott explica:
“Uma seita não nega toda a verdade, mas a deturpa ao acrescentar erros e retirar a centralidade de Cristo” (STOTT, 2001, p. 42).
Geisler e Rhodes (1997, p. 15) identificam quatro marcas principais das seitas:
- Autoridade extra-bíblica: colocam líderes, livros ou revelações acima da Bíblia.
- Cristologia falsa: negam ou diminuem a pessoa e a obra de Cristo.
- Salvação por obras: substituem a graça de Deus por esforços humanos ou rituais.
- Controle espiritual: exigem obediência cega ao líder ou à instituição.
A Bíblia nos alerta contra esse perigo:
“Estou surpreso em ver que vocês estão abandonando tão rapidamente aquele que os chamou pela graça de Cristo, para seguirem outro evangelho que na realidade não é o evangelho. O que ocorre é que algumas pessoas estão perturbando vocês, querendo perverter o evangelho de Cristo” (Gálatas 1.6-7).
“Haverá falsos mestres entre vocês. Eles introduzirão secretamente heresias destruidoras, chegando a negar o Soberano que os resgatou, trazendo sobre si mesmos repentina destruição. Muitos seguirão os caminhos vergonhosos desses homens e, por causa deles, será difamado o caminho da verdade. Na sua cobiça, tais mestres os explorarão com histórias inventadas” (2 Pedro 2.1-3).
2.1. Breve histórico do neopentecostalismo no Brasil
O neopentecostalismo surgiu no Brasil na década de 1970, como uma terceira onda do pentecostalismo (MARIANO, 1999). A primeira onda ocorreu nos anos 1910, com a Congregação Cristã e a Assembleia de Deus; a segunda, nos anos 1950, com a fundação da Igreja do Evangelho Quadrangular, O Brasil para Cristo e Deus é Amor.
A terceira onda trouxe novas características:
- ênfase em guerra espiritual;
- teologia da prosperidade;
- uso estratégico da mídia de massa;
- e uma estrutura organizacional de caráter empresarial.
É nesse contexto que nasce a IURD, fundada por Edir Macedo em 1977, no Rio de Janeiro, com reuniões em uma antiga funerária. Poucos anos depois, a igreja expandiu-se agressivamente e em 1989 adquiriu a Rede Record de Televisão, consolidando sua presença midiática (MARIANO, 1999).
2.2. A influência sociológica e midiática da IURD
A IURD não é apenas uma denominação religiosa, mas um império econômico e midiático. Possui canais de TV, editoras, rádios, jornais e exerce influência política por meio de partidos e bancadas parlamentares (CAMPOS, 1997).
Esse poder contribui para o fortalecimento de sua mensagem, mas também cria uma ilusão de legitimidade espiritual. Muitos confundem tamanho institucional com aprovação divina. No entanto, Jesus advertiu:
“Entrem pela porta estreita, pois larga é a porta e amplo o caminho que leva à perdição, e são muitos os que entram por ela. Como é estreita a porta, e apertado o caminho que leva à vida! São poucos os que a encontram” (Mateus 7.13-14).
3. A teologia da prosperidade: o evangelho do dinheiro
O ensino central da IURD é que a fé, expressa por meio de ofertas e votos, gera prosperidade material e sucesso.
Edir Macedo afirma: “A oferta é o sacrifício que move a mão de Deus em direção ao fiel” (MACEDO, 1997, p. 102).
Mas a Bíblia diz:
“Os que querem ficar ricos caem em tentação, em armadilhas, e em muitos desejos descontrolados e nocivos, que levam os homens a mergulharem na ruína e na destruição” (1 Timóteo 6.9).
“Aprendi a adaptar-me a toda e qualquer circunstância. Sei o que é passar necessidade e sei o que é ter fartura. Aprendi o segredo de viver contente em toda e qualquer situação, seja bem alimentado, seja com fome, tendo muito, ou passando necessidade” (Filipenses 4.12).
Os profetas denunciaram líderes que exploravam financeiramente o povo:
“Seus líderes julgam por suborno, seus sacerdotes ensinam visando lucro, e seus profetas adivinham por dinheiro” (Miquéias 3.11).
Em contraste, Deus oferece gratuitamente salvação:
“Venham, todos vocês que estão com sede, venham às águas; e vocês que não têm dinheiro, venham, comprem e comam!” (Isaías 55.1).
Portanto, a teologia da prosperidade é uma distorção grave do evangelho, pois coloca o dinheiro no centro da fé, e não Cristo.
4. A manipulação religiosa e os objetos mágicos
A IURD é conhecida pelo uso de objetos “ungidos”: rosa, sal grosso, óleo, sabonete, arca, vassoura, copos de água, entre outros. Esses objetos são apresentados como instrumentos de vitória contra o mal ou canais de bênção.
Essa prática é perigosa por vários motivos:
4.1. Substitui Cristo por superstição
A Bíblia ensina que nossa vitória está exclusivamente em Cristo:
“Ele despojou os poderes e as autoridades, e os expôs publicamente, triunfando sobre eles na cruz” (Colossenses 2.15).
Quando alguém deposita sua confiança em um objeto, transfere sua fé da obra consumada de Cristo para algo material. Isso é superstição disfarçada de fé.
4.2. Contradiz a suficiência do Espírito Santo
Paulo escreveu:
“Vocês, porém, não estão sob o domínio da carne, mas do Espírito, se de fato o Espírito de Deus habita em vocês. E, se alguém não tem o Espírito de Cristo, não pertence a Cristo” (Romanos 8.9).
O verdadeiro poder espiritual não está em água “ungida” ou em um sal abençoado, mas na presença do Espírito Santo na vida do crente. Ao ensinar o contrário, a IURD promove uma dependência de rituais e não do próprio Deus.
4.3. Reproduz práticas pagãs
Jeremias denunciou o povo que transformava madeira em ídolos e confiava em objetos:
“Assim diz o Senhor: Não aprendam as práticas das nações, nem fiquem aterrorizados com os sinais nos céus, embora as nações fiquem aterrorizadas com eles. Pois os costumes dos povos nada valem; cortam uma árvore do bosque, e um artesão a modela com seu cinzel. Eles a enfeitam com prata e ouro; fixam-na com martelo e pregos para que não caia” (Jeremias 10.2-4).
Essa crítica se aplica hoje a quem coloca sua fé em qualquer objeto, mesmo que dentro de um discurso “cristão”.
4.4. Alivia a consciência, mas escraviza espiritualmente
Os objetos “ungidos” dão ao fiel uma sensação de segurança imediata: ele sente que está protegido porque possui “a rosa do milagre” ou “a água consagrada”. Mas essa segurança é ilusória.
O profeta Isaías alertou contra buscar refúgio em ídolos:
“Ai dos que descem ao Egito em busca de ajuda, que confiam em cavalos, que dependem da multidão de carros e da grande força dos cavaleiros, mas não olham para o Santo de Israel, nem buscam o Senhor” (Isaías 31.1).
Assim como Israel confiava em cavalos em vez de Deus, muitos hoje confiam em objetos em vez de buscar ao Senhor.
4.5. Gera exploração financeira
Quase sempre, os objetos vêm acompanhados de campanhas financeiras. O fiel é induzido a acreditar que, ao contribuir, receberá não apenas o objeto, mas a bênção que ele supostamente carrega.
Pedro já havia advertido:
“Na sua cobiça, tais mestres os explorarão com histórias inventadas. Há muito tempo a sua condenação paira sobre eles, e a sua destruição não tarda” (2 Pedro 2.3).
Ou seja, a prática não é apenas antibíblica, mas também exploratória.
4.6. O exemplo da igreja primitiva
Na igreja do Novo Testamento, não havia rituais mágicos com objetos. Os apóstolos impunham as mãos, oravam, pregavam a Palavra e curavam em nome de Jesus (Atos 3.6).
Quando Paulo foi confundido com um feiticeiro, deixou claro que o poder vinha de Deus, não de amuletos (Atos 14.8-15). O foco nunca esteve em objetos, mas sempre em Cristo.
5. A idolatria institucional e a centralização no líder
A figura de Edir Macedo e da própria IURD é vista como mediadora da bênção, o que desvia o foco de Cristo.
“Há um só Deus e um só mediador entre Deus e os homens: o homem Cristo Jesus” (1 Timóteo 2.5).
Isaías denunciou líderes que buscavam apenas vantagem própria:
“São pastores sem entendimento; cada um segue o seu próprio caminho, cada um busca vantagem própria” (Isaías 56.11).
Isso mostra que a centralização no líder e na instituição é uma forma moderna de idolatria.
6. A salvação distorcida
A Bíblia ensina:
“Pois vocês são salvos pela graça, por meio da fé, e isto não vem de vocês, é dom de Deus; não por obras, para que ninguém se glorie” (Efésios 2.8-9).
Na IURD, porém, a salvação é frequentemente vinculada a campanhas, votos e sacrifícios financeiros. Isso representa uma negação prática do evangelho bíblico.
Pedro declara:
“Não foi por meio de coisas perecíveis como prata ou ouro que vocês foram redimidos (…), mas pelo precioso sangue de Cristo, como de um cordeiro sem mancha e sem defeito” (1 Pedro 1.18-19).
6.1. A suficiência da cruz negada
Na cruz, Jesus declarou:
“Está consumado!” (João 19.30).
Essa expressão significa que Sua obra foi completa e definitiva. O preço do pecado foi pago de uma vez por todas. Não é necessário acrescentar nenhum mérito humano, nenhum sacrifício adicional ou pagamento monetário para que a salvação seja eficaz.
A IURD, ao ensinar que a pessoa precisa “sacrificar financeiramente” para alcançar bênçãos ou até salvação, coloca um peso que a cruz já removeu. Isso nega a suficiência da obra redentora de Cristo e cria um sistema semelhante ao das indulgências medievais, contra as quais a Reforma Protestante se levantou.
6.2. A graça transformada em mérito humano
O apóstolo Paulo escreveu:
“E, se é pela graça, já não é mais pelas obras; se fosse, a graça já não seria graça” (Romanos 11.6).
A graça é favor imerecido. Mas a IURD transforma graça em barganha. Em sua lógica, quanto mais alguém dá financeiramente, mais bênçãos recebe. Isso cria uma “espiritualidade meritória”, que contradiz frontalmente o evangelho.
Esse ensino, além de aprisionar os fiéis em culpa e medo, também favorece apenas os que têm condições de contribuir financeiramente, distorcendo o caráter inclusivo da salvação.
6.3. A fé como confiança, não moeda
A fé bíblica é confiança plena em Cristo, não uma moeda de troca. O autor de Hebreus definiu:
“Ora, a fé é a certeza daquilo que esperamos e a prova das coisas que não vemos” (Hebreus 11.1).
Na IURD, fé é apresentada quase como um “poder mágico” que, quando acompanhado de ofertas, obriga Deus a agir. Isso reduz o Senhor soberano a um “servo” das determinações humanas.
O exemplo do ladrão na cruz desmonta esse ensino:
“‘Jesus, lembra-te de mim quando entrares no teu Reino’. Jesus lhe respondeu: ‘Eu lhe garanto: Hoje você estará comigo no paraíso’” (Lucas 23.42-43).
Esse homem nada podia oferecer, mas recebeu salvação pela fé simples em Cristo.
6.4. A esperança desviada
Quando a salvação é atrelada a campanhas e rituais, a esperança deixa de estar em Cristo e passa a estar na instituição. Isso faz com que os fiéis dependam mais da igreja e de seus líderes do que do Salvador.
O apóstolo Pedro foi categórico:
“Em nenhum outro há salvação, pois debaixo do céu não há nenhum outro nome dado aos homens pelo qual devamos ser salvos” (Atos 4.12).
Colocar a IURD ou seus rituais como mediadores da salvação é usurpar o lugar exclusivo de Cristo.
6.5. O perigo da falsa segurança
Um dos efeitos mais nocivos dessa distorção é criar uma falsa segurança espiritual. Muitos acreditam que, por darem dinheiro ou participarem de campanhas, estão garantidos diante de Deus. Mas Jesus advertiu:
“Nem todo aquele que me diz: ‘Senhor, Senhor’, entrará no Reino dos céus, mas apenas aquele que faz a vontade de meu Pai que está nos céus” (Mateus 7.21).
Essa falsa confiança é trágica, pois impede a verdadeira conversão, que vem do arrependimento e fé em Cristo, não de rituais externos.
6.6. O chamado ao arrependimento verdadeiro
O evangelho sempre coloca arrependimento e fé como o caminho da salvação. Pedro pregou em Jerusalém:
“Arrependam-se, pois, e voltem-se para Deus, para que os seus pecados sejam cancelados” (Atos 3.19).
E Paulo reafirma:
“Se você confessar com a sua boca que Jesus é Senhor e crer em seu coração que Deus o ressuscitou dentre os mortos, será salvo” (Romanos 10.9).
Não é a campanha, não é o voto financeiro, mas o arrependimento e a fé que garantem o perdão e a vida eterna.
6.7. O contraste entre o evangelho e o comércio religioso
Jesus expulsou os cambistas do templo porque eles transformaram a adoração em negócio:
“‘A minha casa será chamada casa de oração’; mas vocês estão fazendo dela um covil de ladrões” (Mateus 21.13).
A IURD, ao comercializar bênçãos e condicionar salvação a ofertas, repete esse mesmo erro. Onde deveria haver graça, coloca-se preço; onde deveria haver oração, levanta-se mercado.
Assim, sua prática contradiz o espírito do evangelho e precisa ser confrontada à luz das Escrituras.
7. Comparação: Bíblia x IURD
| Tema | O que a Bíblia ensina (NVI) | O que a IURD ensina/pratica |
|---|---|---|
| Salvação | A salvação é dom gratuito de Deus pela fé em Cristo, não por obras ou dinheiro (Efésios 2.8-9). | Salvação é associada a campanhas e votos financeiros. |
| Prosperidade | Deus supre nossas necessidades conforme Sua vontade, e não promete riquezas a todos (Filipenses 4.19). | Prosperidade é vista como sinal de fé; pobreza é maldição espiritual. |
| Mediação | Há um só mediador entre Deus e os homens: Cristo Jesus (1 Timóteo 2.5). | A igreja e seus líderes assumem papel mediador. |
| Vitória sobre o mal | A vitória sobre Satanás já foi conquistada por Cristo na cruz (Colossenses 2.15). | Ênfase em exorcismos e objetos ungidos como meio de vitória. |
| Contentamento | O cristão aprende a viver contente em qualquer situação, com muito ou pouco (Filipenses 4.12). | A fé deve sempre resultar em riqueza e sucesso. |
| Oferta | A oferta deve ser voluntária e alegre, e não obrigação (2 Coríntios 9.7). | Oferta é “sacrifício” obrigatório para obter bênçãos. |
| Uso da Bíblia | Toda a Escritura é inspirada por Deus e suficiente para ensinar e corrigir (2 Timóteo 3.16). | A Bíblia é usada de forma seletiva para sustentar doutrinas próprias. |
| Natureza da fé | A fé é confiança no caráter e nas promessas de Deus (Hebreus 11.1). | Fé é tratada como poder mágico para conquistar bens materiais. |
| Missão da Igreja | A missão é reconciliar os homens com Deus em Cristo (2 Coríntios 5.18). | Missão reduzida a prosperidade e libertação material. |
| Centralidade da mensagem | O evangelho é Cristo crucificado, poder e sabedoria de Deus (1 Coríntios 1.23). | Centralidade em campanhas, objetos e testemunhos de prosperidade. |
| Vida eterna | A vida eterna é dádiva em Cristo (1 João 5.11). | Ênfase em bênçãos terrenos. |
8. Conclusão
A análise mostrou que a IURD apresenta um evangelho distorcido: a fé é moeda de troca, a graça é condicionada a votos, e Cristo é substituído pela instituição e seus líderes.
Jesus declarou:
“Eu sou o caminho, a verdade e a vida. Ninguém vem ao Pai, a não ser por mim” (João 14.6).
E Pedro reafirmou:
“Em nenhum outro há salvação, pois debaixo do céu não há nenhum outro nome dado aos homens pelo qual devamos ser salvos” (Atos 4.12).
A verdadeira igreja deve permanecer fiel ao evangelho de Cristo, rejeitando falsos ensinos e pregando a cruz como única esperança de salvação.
“Mas longe esteja de mim gloriar-me, a não ser na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo” (Gálatas 6.14).
Referências
CAMPOS, Leonildo Silveira. Teatro, templo e mercado: organização e marketing de um empreendimento neopentecostal. Petrópolis: Vozes, 1997.
GEISLER, Norman; RHODES, Ron. Conviction Without Compromise: Standing Strong in the Core Beliefs of the Christian Faith. Minneapolis: Bethany House, 1997.
LOPES, Hernandes Dias. A supremacia de Cristo. São Paulo: Hagnos, 2013.
MACEDO, Edir. Orixás, caboclos e guias: deuses ou demônios? Rio de Janeiro: Universal Produções, 1997.
MARIANO, Ricardo. Neopentecostais: sociologia do novo pentecostalismo no Brasil. São Paulo: Loyola, 1999.
STOTT, John. A verdade do evangelho: confrontando o pluralismo religioso. São Paulo: ABU, 2001.
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