Expressões como "eu determino a minha vitória", "profetize sobre a sua vida financeira", "cuidado com o que você fala porque a palavra tem poder" e "não aceite essa doença no seu vocabulário" tornaram-se comuns em muitos púlpitos, livros de autoajuda religiosa e redes sociais. Esse conjunto de ideias faz parte do que a teologia denomina Confissão Positiva (ou Movimento da Palavra da Fé).

Embora utilize terminologias cristãs e cite textos bíblicos isolados, a Confissão Positiva altera a essência da fé bíblica, transforma a oração em um decreto de autoridade humana e inverte a relação fundamental entre a criatura e o Criador soberano. Neste artigo, examinamos as origens, os erros conceituais e o que as Escrituras Sagradas realmente ensinam sobre o poder da palavra humana e a soberania de Deus.

1. O que é a Confissão Positiva e onde ela surgiu?

A doutrina da Confissão Positiva ensina que a fala humana possui uma capacidade criativa espiritual quase metafísica. Segundo essa visão:

  • A fé não é uma atitude de confiança e submissão em Deus, mas uma "força espiritual ativada pelas palavras".
  • Falar coisas positivas ("confissão positiva") atrai saúde, prosperidade e sucesso físico imediato.
  • Reconhecer um problema, falar de uma dor ou expressar receio ("confissão negativa") abre portas espirituais para a tragédia e a doença.
  • O crente teria o poder legal de "decretar", "exigir" ou "chamar à existência" as circunstâncias desejadas, cabendo a Deus cumprir o que foi determinado.

Historicamente, essas ideias não têm origem no cristianismo histórico nem na teologia dos apóstolos. Elas nasceram no final do século XIX e início do século XX nos Estados Unidos, resultantes da fusão do Novo Pensamento (New Thought) e da Ciência Mental com o ambiente pentecostal, influenciados inicialmente pelos escritos de E. W. Kenyon e posteriormente popularizados por líderes do televangelismo como Kenneth Hagin, Kenneth Copeland e pregadores da Teologia da Prosperidade.

2. A inversão de papéis: Quem é o Senhor?

O primeiro e mais grave desvio da Confissão Positiva é a usurpação da soberania de Deus. Quando se ensina que o crente pode "determinar" e "decretar" sua própria realidade, o homem assume a posição de regente e Deus é rebaixado à condição de executor das ordens humanas.

A Bíblia declara de forma inequívoca que a soberania sobre o universo e sobre o futuro pertence única e exclusivamente ao Senhor:

"O nosso Deus está nos céus, e pode fazer tudo o que lhe agrada." (Salmos 115:3)

O apóstolo Tiago adverte com firmeza contra a arrogância de quem presume determinar os acontecimentos futuros pela força de suas próprias palavras e projetos:

"Ouçam agora, vocês que dizem: ‘Hoje ou amanhã iremos para esta ou aquela cidade, passaremos um ano ali, faremos negócios e ganharemos dinheiro’. Vocês nem sabem o que acontecerá amanhã! Que é a sua vida? Vocês são como a neblina que aparece por um pouco de tempo e depois se dissipa. Em vez disso, deveriam dizer: ‘Se o Senhor quiser, viveremos e faremos isto ou aquilo’." (Tiago 4:13-15)

O cristão bíblico não comanda o amanhã; ele se curva à perfeita e soberana providência de Deus, reconhecendo com humildade: "Se o Senhor quiser".

3. Textos bíblicos distorcidos pela Confissão Positiva

Os defensores da Confissão Positiva constroem seus argumentos retirando versículos de seu contexto literário e histórico. Vamos analisar os principais textos usados e o que eles de fato significam:

A. Provérbios 18:21 – "A língua tem poder sobre a vida e a morte"

O versículo diz:

"A língua tem poder sobre a vida e sobre a morte; os que gostam de usá-la comerão do seu fruto." (Provérbios 18:21)

A distorção: Ensinar que as palavras têm uma vibração mística ou poder mágico de criar matéria física ou materializar enfermidades e riquezas.

O sentido bíblico: O livro de Provérbios é literatura de sabedoria prática. O poder da língua aqui se refere ao impacto ético, relacional, jurídico e social de nossas palavras. Um falso testemunho em um tribunal podia levar uma pessoa inocente à morte física; uma palavra de reconciliação podia salvar vidas; calúnias e fofocas destroem famílias, enquanto conselhos sábios preservam a paz. O texto fala sobre a responsabilidade moral do que dizemos aos nossos semelhantes, e não sobre capacidade ontológica de criar o cosmos pela boca.

B. Romanos 4:17 – "Chama à existência coisas que não existem"

O apóstolo Paulo escreve sobre a fé de Abraão:

"Como está escrito: ‘Eu o constituí pai de muitas nações’. Ele é nosso pai aos olhos de Deus, em quem creu, o Deus que dá vida aos mortos e chama à existência coisas que não existem, como se existissem." (Romanos 4:17)

A distorção:Dizer que o cristão deve "chamar à existência" o carro novo, a cura ou a bênção que não vê.

O sentido bíblico: O sujeito da frase é Deus, e não Abraão nem o leitor. Quem chama à existência o que não existe a partir do nada (creatio ex nihilo) é o Deus Onipotente. Abraão não criou o filho pela palavra de sua boca; ele simplesmente creu na promessa que o Deus Todo-Poderoso havia feito.

C. Marcos 11:22-24 – Fé no poder de Deus versus fé na própria fala

Jesus declara:

"Respondeu Jesus: ‘Tenham fé em Deus. Eu asseguro que, se alguém disser a este monte: “Levante-se e atire-se no mar”, e não duvidar em seu coração, mas crer que acontecerá o que diz, assim lhe será feito. Portanto, eu digo: Tudo o que vocês pedirem em oração, creiam que já o receberam, e assim sucederá.’" (Marcos 11:22-24)

A distorção: Isolar o texto para transformá-lo em uma fórmula mecânica em que qualquer desejo egoísta precisa ser concedido se a pessoa não duvidar.

O sentido bíblico: O imperativo de Jesus começa com o foco correto: "Tenham fé em Deus". A fé é direcionada à pessoa, ao poder e à vontade do Pai, nunca à própria capacidade de proferir palavras. Como o restante das Escrituras esclarece (1 João 5:14; Mateus 6:10), a oração genuína é sempre balizada pela santa vontade divina.

4. Oração Bíblica versus Decreto e Determinação

Existe um abismo entre o padrão bíblico de oração ensinado por Cristo e o hábito moderno de "decretar vitórias":

  • No ensino de Jesus: A oração é uma súplica humilde e reverente de um filho ao Pai. No Sermão do Monte, Jesus nos ensinou a orar:

    "Vocês, orem assim: ‘Pai nosso, que estás nos céus! Santificado seja o teu nome. Venha o teu Reino; seja feita a tua vontade, assim na terra como no céu.’" (Mateus 6:9-10)

    No Jardim do Getsêmani, diante da agonia da cruz, o próprio Filho de Deus demonstrou total submissão:

    "‘Pai, se queres, afasta de mim este cálice; contudo, não seja feita a minha vontade, mas a tua’." (Lucas 22:42)

  • Na teologia da Confissão Positiva: Dizer "se for da tua vontade"é visto com desdém, sob a alegação de que isso demonstraria "falta de fé" ou "dúvida". Exige-se que o crente dê ordens à realidade em vez de pedir com dependência a Deus.

A Bíblia, no entanto, coloca a conformidade com a vontade de Deus como a condição indispensável de toda oração aceitável:

"Esta é a confiança que temos ao nos aproximarmos de Deus: se pedirmos alguma coisa de acordo com a vontade de Deus, ele nos ouvirá. E, se sabemos que ele nos ouve em tudo o que pedimos, sabemos que temos o que dele pedimos." (1 João 5:14-15)

5. A crueldade pastoral da Confissão Positiva com os que sofrem

Além de teologicamente errônea, a Confissão Positiva gera profundas feridas pastorais e psicológicas:

A culpabilização da vítima:Quando um crente adoece, perde o emprego ou vivencia a dor do luto, a teologia da Confissão Positiva insinua que a culpa é dele mesmo, por ter "confessado negativamente" ou por ter uma "fé fraca". Isso transforma a dor do sofrimento em um fardo insuportável de culpa religiosa.

O exemplo bíblico do apóstolo Paulo:O apóstolo Paulo enfrentou um doloroso "espinho na carne". Ele não "decretou a cura" nem repreendeu a enfermidade com fórmulas de autoridade. Ele orou humildemente ao Senhor:

"Três vezes roguei ao Senhor que o tirasse de mim. Mas ele me disse: ‘Minha graça é suficiente a você, pois o meu poder se aperfeiçoa na fraqueza’. Portanto, eu me gloriarei ainda mais alegremente em minhas fraquezas, para que o poder de Cristo repouse em mim." (2 Coríntios 12:8-9)

Paulo não foi censurado por Deus por falta de fé, nem deixou de ser um servo fiel por carregar uma fraqueza física. Deus usou o sofrimento para manter Paulo humilde e para que a Sua graça reluzisse com mais glória.

Comparativo: Fé Bíblica versus Confissão Positiva

AspectoFé Cristã BíblicaConfissão Positiva (Palavra da Fé)
Conceito de FéConfiança no caráter, promessas e providência soberana de Deus (Hebreus 11:1).Uma força cósmica ou lei espiritual ativada pelo homem através de palavras.
O Papel das PalavrasInstrumento de comunicação, louvor e edificação moral e ética (Efésios 4:29).Poder ontológico de criar e alterar a realidade física e espiritual.
Postura na OraçãoPetição humilde e submissa: "seja feita a tua vontade" (Mateus 6:10).Decreto, determinação e ordem de autoridade: "eu determino a vitória".
SoberaniaDeus é o Senhor Supremo sobre tudo e todos (Salmos 115:3).O homem governa seu próprio destino e Deus é obrigado a agir conforme o decreto.
Compreensão da DorRealidade do mundo caído; Deus usa tribulações para o nosso crescimento (Romanos 8:28).Sinal de falta de fé, pecado de dúvida ou consequência de "confissão negativa".

Conclusão

A Confissão Positiva oferece uma ilusão de controle: promete que o ser humano pode dominar a saúde, as finanças e o futuro mediante a repetição de frases de efeito e decretos. Mas essa promessa substitui a dependência graciosa do Pai Celestial por uma espécie de encantamento verbal antropocêntrico.

A verdadeira fé cristã não se apoia no poder da nossa boca, mas na fidelidade dAquele que nos chamou. Podemos descansar seguros porque Deus governa com amor e sabedoria perfeitos. Não precisamos ter medo de admitir fraquezas ou dores, pois é na nossa fraqueza que a graça de Cristo se aperfeiçoa.

Referência bibliográfica das citações bíblicas (ABNT):

BÍBLIA. Português. Bíblia Sagrada: Nova Versão Internacional (NVI). São Paulo: Editora Vida / Sociedade Bíblica Internacional, 2000.